terça-feira, 21 de setembro de 2010

..estradas da vida..


"Onde os meus pés estiverem,
Aí estará a minha raíz para me sustentar,
Para me erguer e levantar nas asas do vento,
Da chuva e do sol.
*
Quando o meu chão se abala e estremece,
É a minha raíz sacudindo os galhos, os frutos e os talos..
Que só a lucidez já me quis..
*
E quando o meu ódio é frio, e o meu amor é ardente,
São as asas da vida equilibrando os planos..
E quando a minha voz faz questão de dar o meu segredo,
E o meu coração revelar os meus desejos,
São os palcos da vida levantando os panos..
*
Aonde a razão me levar, sob o chão estará a minha raíz,
para me fortalecer, me fortificar, romper, perdoar ou calar,
E se um dia o meu sol se esconder,
É que a noite também vive em mim,
E a lua virá para alternar as minhas marés,
E as estrelas guiarão os meus pés..
*
E quando o que em mim é sagrado se torna profano,
É que,
Anunciada a vida,
Há um querer mais cigano,
É que a luz dessa noite me quer com mais clareza,
E nas veias do mundo
Eu sou sangue que alimenta, eu sou coragem!
*
As estradas da vida são uma eterna coragem,
E aí se revela a minha natureza.."
*
*
Ana Cunha - Fontanelas - Verão 1991
in O Vento e a Lua, História de uma Vagabunda

domingo, 19 de setembro de 2010

Elegias de Duíno


"Quem se eu gritasse, me ouviria entre as hierarquias dos anjos?
E dado mesmo que me tomasse um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
ante sua existência mais forte.
Pois o belo não é senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
e o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha destruir-nos.
Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo de obscuro soluço.
*
Ah! A quem podemos recorrer então?
Nem aos anjos, nem aos homens, e os animais sagazes logo percebem que não estamos muito seguros no mundo interpretado.
Resta-nos talvez alguma árvore na encosta que diariamente possamos rever.
Resta-nos a rua de ontem e a mimada fidelidade de um hábito, que se compraz connosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite quando o vento cheio dos espaços do mundo desgasta-nos o rosto - para quem ela não é / sempre a desejada, levemente decepcionante, que para o solitário coração se impõe penosamente.
Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio para os espaços que respiramos;
talvez que os pássaros sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo.
*
Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas esperavam que tu as percebesses.
Do passado erguia-se uma vaga aproximando-se, ou ao passares sob uma janela aberta, um violino se entregava.
Tudo isso era missão. Mas a levaste ao fim?
Não estavas sempre distraído pela espera, como se tudo te ansiasse a bem amada?
(onde queres abrigá-la então, se os grandes e estranhos pensamentos entram e saem de ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu achaste muito mais amorosas que as apaziguadas.
Começa sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi apenas um pretexto para ser: o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.
Já pensaste pois em gaspara Stampa o bastante para que alguma jovem, a quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar mais fecundas para nós?
Não é tempo de nos libertarmos, amando, do objecto amado e a ele tremendo resistirmos como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma?
Pois parada não há em / parte alguma.
*
Vozes, vozes.
Escuta, coração como outrora somente os santos escutavam:
até que o gigantesco apelo levantava-os do chão;
mas eles continuavam ajoelhados, inabaláveis, sem desviarem a atenção: eles assim escutavam.
Não que tu pudesses suportar a voz de Deus, de modo algum.
Mas escuta o sopro, a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direcção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas de Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, / tranquilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impõs a ti como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim?
Lentamente devo dissipar a aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco o puro movimento de seus espíritos.
*
Certo, é estranho não habitar mais terra, não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos, às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas.
Não dar sentido do futuro humano; o que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo.
Não ser mais, e até o próprio nome deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos.
Estranho, ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto no espaço.
E estar morto é penoso e cheio de recuperações, até que lentamente se divise um pouco da eternidade.
- Mas os vivos cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes se caminham entre vivos ou mortos.
A correnteza eterna arrebata através de ambos os reinos todas as idades.
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.
*
Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo, perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno suavemente se deixa, ao crescer.
Mas nós que de tão grandes mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar / sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos, a primeira música ousando atravessou o árido letargo, que então no sobressaltado espaço, do qual um quase / divino adolescente escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?"
*
*
* Rainer Marie Rilke
* Elegias de Duíno
* (imagem de Alex Grey)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Cartas



"Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim.
Um fio de luz coalha na saliva do lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão.
O dia cresce, sem luz - e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a última vez...
O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me perteceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria - mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas o olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te."
*
*
* Al Berto
* Cartas, in O Anjo Mudo

domingo, 22 de agosto de 2010

Começámos como um mineral..



"Começámos
como um mineral,
Irrompemos na vida vegetal e no estado animal,
como seres humanos, em seguida,
e esquecemos sempre os nossos estados anteriores,
salvo no início da Primavera,
quando nos recordamos um pouco
de ser verdes mais uma vez.
É assim que um jovem se volta para um professor.
É assim que um bebé se inclina para o seio,
sem saber o segredo do seu desejo,
mas voltando-se por instinto.
A humanidade é conduzida ao longo de um percurso evolutivo
através da sua migração de inteligências.
E apesar de parecer que dormimos,
há uma vivacidade interior
que direcciona o sonho.
Com o tempo irá assombrar-nos de volta
para a verdade de quem somos."
*
*
* Rumi, Século XIII
* imagem de Alex Grey

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Fértil Lua Caminho


"Põe-te a caminho com o pé certo
Parte da melhor maneira e não haverá problemas
*
é essa a essência
*
Chegou o momento de agir - agora chefia e segue...
Segue a água até ao rio, como o rio,
Segue o caminho que indicas, segue-o -
*
Fértil, Lua, Caminho: diz
*
Segue o caminho que se abre, o caminho primaveril,
Ao luar da lua e a luz do amor,
Segue o teu coração e segue na escuridão
Guiado como és: a orientação está no teu caminho
*
Neste reverso lua-sombra-prata do dia"
*
*
* Continuação (17) * Sui *
in I CHING - O Livro das Mutações
Martin Palmer / Jay Ramsay / Zhao Xiaomin

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Aprendiz de Viajante



"Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».
Creio que na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha quinze anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha sensação de que lera uma predestinação.
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite... Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti. Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude. Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava: no meio das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo, em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante em mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida, se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas. Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida. Caminha, assim, com a leveza de quem abandonou tudo. Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, vêem. O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único, não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo.
*
*
* Al Berto
in O Anjo Mudo

sábado, 24 de julho de 2010

Dizer-te

"Carrego em mim uma palavra imensa. É uma palavra avassaladora, uma palavra devastadora. É uma palavra que não sei pronunciar. É uma palavra para ti. Entre nós fica o silêncio que essa palavra não consegue transpor. Vivemos nesse silêncio, um espaço contido e vazio, o imensurável árido em que duas pessoas não conseguem falar. E nem eu precisaria que falasses, bastaria que ouvisses esta palavra que te quero dizer. Bastaria essa única palavra erguer-se singular na minha voz, atravessar o silêncio, escoar-se na treva funda dos teus ouvidos. Aí partilharíamos o segredo que todas as coisas encerram no âmago de si. Aí, tu serias eu e eu apenas um pouco mais de ti. Teríamos esta palavra sem nome na qual seríamos um só. Eu quero. Eu juro.
Entras e sais da minha vida numa repetição infinita. É um ciclo tresloucado, inevitável. Tal como a água que nasce entre as pedras e demora muito a tornar, na certeza, porém, que tudo se repetirá, uma e outra vez, uma e outra vez. Há entre nós este silêncio intransponível que nos vai ficando, que nos vai minando, soterrando, preenchendo com as raízes do seu vazio. E eu a sentir. E tu a partires, sempre como se fosse para nunca mais voltares. E eu quero dizer-te. Eu quero. Eu juro. Quero dizer-te de uma vez por todas esta palavra que me aperta, que me queima, que me mantém acordado no sono e em tremura na vigília. Eu quero. Eu juro. Porque um dia partirás para sempre. Porque um dia o silêncio será inquebrável, de tal forma espesso que nenhuma palavra o saberá cortar. E esta palavra é papel, é vidro partido, é lâmina reluzente. Esta palavra é tudo e é nada pois é uma vida vivida, imaginada, sofrida. Que não se aprende nem se ensina. É uma palavra que me cresce de dentro. Que me tem crescido a cada instante, como uma infiltração subterrânea, como uma obsessão, como uma traça insaciável que me rumina o corpo e a mente noite e dia, sem parar, sem parar. É como o som metódico e louco de uma máquina de costura que trabalha incansável. Eu ouço o carrinho girar no carreto, os pés no vai e vem furibundo do pedal, a agulha infalível ascendendo e martelando o pano aparado por duas mãos no recorte do traço. É incessante. Eu sou, eu existo no plano informe e inominável dessa palavra. E eu quero encostar os meus lábios à tua orelha e sussurrar-te esta larva, esta palavra bicho, casulo, esta doença raiada pela minha loucura que nos unirá para sempre à volta de um mesmo olhar. Quero deixá-la deslizar para dentro de ti como a saliva breve que se sorve de um beijo. Eu quero. Eu juro.
Trago comigo esta palavra imensa. É uma palavra maior que eu ou maior que tu. E eu quero. Eu preciso. Eu desejo oferecer-te esta palavra. Eu juro"
*
*
Carlos Geadas
Autor do livro, os dias de um homem banal
*
* imagem: Silence, Henry Fuseli