terça-feira, 26 de julho de 2011

incandescência


"E tudo se confundia com o que era, ou pensava ser, assim perdida e mais que tudo lúcida, à beira do renascer. Matéria bruta a desfazer-se, a dar lugar à febre, território poético onde se anunciava a morte, onde crescia apenas o furioso apelo das origens.
Estátua que entrevia, intensamente viva, construída de ondas regulares que faziam estremecer o caos e desenhavam em harmonia um baptismo de sangue."

Maria Graciete Besse
Incandescências

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A tua beleza submerge-me



"Sabina já não beijava nem homens nem mulheres. Dentro da febre da sua ansiedade, o mundo ia perdendo a sua forma humana. Estava a perder o poder humano de articular o corpo noutro corpo em plenitude humana. Ela delimitava horizontes, afogando-se em planetas sem eixo, perdendo a sua polaridade e o seu saber divino de integração, fusão. Propagava-se como a noite se propaga no universo e não encontrou nenhum deus com quem repousasse. A outra metade pertencia ao sol e ela estava em guerra com o sol e com a luz. Não podia suportar traços de luz em livros abertos, nem a orquestração de ideias tricotadas num único tema; não seria coberta pelo sol e no entanto metade do universo pertencia ao sol; ela voltaria a serpente apenas para aquele que pudesse cobrir-lhe o corpo com a sua sombra dando-lhe a alegria da fecundação.
(...)

A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua pele me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável.

As tuas mentiras, não são mentiras, Sabina. São flechas lançadas para fora da tua órbita pela força da tua fantasia. Para alimentar a ilusão. Para destruir a realidade. Vou ajudar-te: sou eu quem inventará para ti as mentiras e com elas iremos atravessar o mundo. Atrás das nossas mentiras desenrolo o fio de ouro de Ariana - porque de todas as alegrias a maior é a de voltar pelo percurso das mentiras, chegar novamente ao ponto de partida e dormir uma vez por ano livre de todas as estruturas de superfície.

Tu deixaste a tua marca no mundo, Sabina. Eu apenas o atravessei como um fantasma. Será que à noite alguém dá pelo mocho na árvore, ou pelo morcego que vem contra a janela enquanto os outros falam, ou pelos olhos que reflectem como água e bebem como mata-borrão, ou pela piedade que vacila como luz de vela, ou pelo conhecimento seguro sobre o qual as pessoas adormecem?

Será que alguém sabe quem eu sou?"


Anais Nin
in A Casa do Incesto

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Tu eras também uma pequena folha


"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."


Pablo Neruda

sexta-feira, 24 de junho de 2011

pequenas partes de algo maior..


Há momentos em que é preciso dizer adeus, meter os pés a caminho, deixar que este se manifeste diante de nós. Criamos magia nas entrelinhas, nos instantes em que os passos distintos se cruzam e os corpos dançam pela vida. Louvando a liberdade de escolher viver no outro lado, num mundo em que as regras do amor e da paz reinam. Aceitando o outro sem reservas ou julgamentos, lembrando que todos unidos poderemos ser mais, que assim somos mais fortes. A familia que escolhemos encontrar pelo Caminho, talvez apenas para celebrar a Vida.

* ..a todos os viajantes que se reúnem em nome da felicidade.. *

"Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado."
 * Goethe

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir


"Afinal a melhor maneira de viajar é sentir. 
Sentir tudo de todas as maneiras. 
Sentir tudo excessivamente. 
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência. 
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas, 
que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos."

Álvaro de Campos

..mensagens do Caminho.
Grata pela partilha *

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Cântico Negro



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"



José Régio

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Prece Celta



«Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalente ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a música seja a tua companhia nos momentos secretos de ti mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia da tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um recomeço, onde a tua alma dance na luz.
Que em cada passo que dês fiquem marcas luminosas da tua passagem em cada coração.
Que em cada amigo o teu coração leve alegria, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas.
Que nos teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente no teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a Alma é grande e generosa...»