quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

...


"Somente aquelas pessoas que conseguem ficar sozinhas são capazes de amar, de compartilhar, de penetrar no mais profundo âmago da outra pessoa - sem possuí-la, sem se tornar dependente dela, sem criar "o outro", reduzindo-o a uma coisa, e sem se viciar no outro.
Elas permitem ao outro total liberdade porque sabem que se ele se for embora, elas continuarão sendo tão felizes quanto são agora. A felicidade delas não pode ser tirada pelo outro porque não foi dada por ele."

..umas palavras que se cruzaram no meu caminho este dia..
Para um verdadeiro renascer da luz interior.

* brilhem

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Imagem fantasma


"És a minha imagem fantasma. Kaponhe ua Katua. És como um sonho espécie de regresso inacabado desejo inconsciente eu preferia varrer-te da memória porquê tão longe porquê tão abraçados. Sonhos que me fazem sofrer quando regresso do fundo do fundo e de dentro de mim ideia perfeita do êxtase do amor sensação permanente só tocar ao de leve e já não estou em mim estou em ti e já não estás em ti estás em mim os dois flutuando os dois um só no ar espaço azul fluído transparente. Muhamba ua tumuari. Contra os sonhos. Contra as imagens fanstasmas perpétuas recorrentes. Contra o outro lado de ser que não domino. Descansar por uns tempos das trevas das procuras das interrogações. Viver. (...) Não pensar, porque pensar em excesso enfraquece o corpo e a alma."


* Y. K. Centeno
As Palavras Que Pena in Três Histórias de Amor

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

As Palavras Que Pena


"A comunhão dos santos. Em primeiro lugar descobre-se a linha e o ponto. E só depois de se terem esgotado todas as possibilidades é que a linha se enrola suave sobre si mesma cheia de invenção e o ponto cresce e alarga-se formando assim o círculo. Com linhas com pontos e finalmente com círculos tem-se o mundo na mão. É preciso apenas descobri-lo, persegui-lo, possuí-lo. E tem-se o mundo na mão. Regular os espaços. Ou melhor: regular os tempos e os espaços. Cria-se a terra com o seu recheio de seres e de coisas. Pequenas constelações isoladas umas das outras. Sem comunicação. E o que é pior - sem nada a comunicar. (...)
De vez em quando há um homem. Parece conduzir-nos. Mas não há nada atrás dele, ninguém o segue. E de vez em quando uma estrela tem pena e aproxima-se, mas encadeia-o com a sua luz excessiva e ele perde-se mais ainda, perde-se até dos próprios passos. A estrela no fundo é inútil, não serve para nada. (...)
Quando na floresta as árvores são vivas e se agitam e eu posso percebê-las. Sopram ventos da terra. Ventos fundos que sobem das raízes e se espalham nos ramos e nas folhas e as árvores estremecem como se tivessem sido acordadas nesse instante e agitam-se toda a noite e são vivas. Adivinho o mistério, cheio de seiva, cheio de frutos maduros. Adivinho o meu sonho idêntico ao sonho delas. Todos os sonhos provêm do mundo a que pertencemos. Do verdadeiro mundo. Surgem inesperadamente, desgarrados na noite, às vezes por engano sonhamos sonhos dos outros e às vezes por engano não chegamos sequer a reconhecer os sonhos que são nossos. Seguimos sempre no escuro. Mas seguimos. (...)
Com a lua não se segue no escuro. É-se conduzido por dentro, sem reflexão, sem problemas. Mas só enquanto há lua."
*
* Y. K. Centeno
* As Palavras Que Pena

domingo, 3 de outubro de 2010

Após Li Po


"De onde vens? Aonde vais?
O mundo não é como o vês -
Tenho olhos diferentes dos teus
*
E atravesso o teu caminho como uma sombra.
Do que é que precisas realmente?
Que peso é esse sobre os teus ombros?
Quem te deu esse sorriso complacente?
*
Conheço um tipo diferente de reino
Onde tudo o que transporto é o céu e o momento
E as pessoas são como são, como eu,
E as aves, as abelhas e as flores são iguais.
*
Bobo, menestrel, vagabundo - sou tudo isso
Mas o meu segredo é que não sou ninguém
E a brisa que sopra através de mim é a brisa
E o meu bafo a desaparecer no vento.
*
O que dou, dou. É tudo o que tenho -
E o milagre é que é suficiente."
*
*
* O Viajante (56) * Lu *
in I Ching - O Livro das Mutações
Martin Palmer / Jay Ramsay / Zhao Xiaomin

terça-feira, 21 de setembro de 2010

..estradas da vida..


"Onde os meus pés estiverem,
Aí estará a minha raíz para me sustentar,
Para me erguer e levantar nas asas do vento,
Da chuva e do sol.
*
Quando o meu chão se abala e estremece,
É a minha raíz sacudindo os galhos, os frutos e os talos..
Que só a lucidez já me quis..
*
E quando o meu ódio é frio, e o meu amor é ardente,
São as asas da vida equilibrando os planos..
E quando a minha voz faz questão de dar o meu segredo,
E o meu coração revelar os meus desejos,
São os palcos da vida levantando os panos..
*
Aonde a razão me levar, sob o chão estará a minha raíz,
para me fortalecer, me fortificar, romper, perdoar ou calar,
E se um dia o meu sol se esconder,
É que a noite também vive em mim,
E a lua virá para alternar as minhas marés,
E as estrelas guiarão os meus pés..
*
E quando o que em mim é sagrado se torna profano,
É que,
Anunciada a vida,
Há um querer mais cigano,
É que a luz dessa noite me quer com mais clareza,
E nas veias do mundo
Eu sou sangue que alimenta, eu sou coragem!
*
As estradas da vida são uma eterna coragem,
E aí se revela a minha natureza.."
*
*
Ana Cunha - Fontanelas - Verão 1991
in O Vento e a Lua, História de uma Vagabunda

domingo, 19 de setembro de 2010

Elegias de Duíno


"Quem se eu gritasse, me ouviria entre as hierarquias dos anjos?
E dado mesmo que me tomasse um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
ante sua existência mais forte.
Pois o belo não é senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
e o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha destruir-nos.
Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo de obscuro soluço.
*
Ah! A quem podemos recorrer então?
Nem aos anjos, nem aos homens, e os animais sagazes logo percebem que não estamos muito seguros no mundo interpretado.
Resta-nos talvez alguma árvore na encosta que diariamente possamos rever.
Resta-nos a rua de ontem e a mimada fidelidade de um hábito, que se compraz connosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite quando o vento cheio dos espaços do mundo desgasta-nos o rosto - para quem ela não é / sempre a desejada, levemente decepcionante, que para o solitário coração se impõe penosamente.
Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio para os espaços que respiramos;
talvez que os pássaros sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo.
*
Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas esperavam que tu as percebesses.
Do passado erguia-se uma vaga aproximando-se, ou ao passares sob uma janela aberta, um violino se entregava.
Tudo isso era missão. Mas a levaste ao fim?
Não estavas sempre distraído pela espera, como se tudo te ansiasse a bem amada?
(onde queres abrigá-la então, se os grandes e estranhos pensamentos entram e saem de ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu achaste muito mais amorosas que as apaziguadas.
Começa sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi apenas um pretexto para ser: o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.
Já pensaste pois em gaspara Stampa o bastante para que alguma jovem, a quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar mais fecundas para nós?
Não é tempo de nos libertarmos, amando, do objecto amado e a ele tremendo resistirmos como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma?
Pois parada não há em / parte alguma.
*
Vozes, vozes.
Escuta, coração como outrora somente os santos escutavam:
até que o gigantesco apelo levantava-os do chão;
mas eles continuavam ajoelhados, inabaláveis, sem desviarem a atenção: eles assim escutavam.
Não que tu pudesses suportar a voz de Deus, de modo algum.
Mas escuta o sopro, a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direcção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas de Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, / tranquilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impõs a ti como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim?
Lentamente devo dissipar a aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco o puro movimento de seus espíritos.
*
Certo, é estranho não habitar mais terra, não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos, às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas.
Não dar sentido do futuro humano; o que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo.
Não ser mais, e até o próprio nome deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos.
Estranho, ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto no espaço.
E estar morto é penoso e cheio de recuperações, até que lentamente se divise um pouco da eternidade.
- Mas os vivos cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes se caminham entre vivos ou mortos.
A correnteza eterna arrebata através de ambos os reinos todas as idades.
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.
*
Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo, perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno suavemente se deixa, ao crescer.
Mas nós que de tão grandes mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar / sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos, a primeira música ousando atravessou o árido letargo, que então no sobressaltado espaço, do qual um quase / divino adolescente escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?"
*
*
* Rainer Marie Rilke
* Elegias de Duíno
* (imagem de Alex Grey)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Cartas



"Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim.
Um fio de luz coalha na saliva do lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão.
O dia cresce, sem luz - e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a última vez...
O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me perteceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria - mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas o olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te."
*
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* Al Berto
* Cartas, in O Anjo Mudo