quinta-feira, 15 de março de 2012
"Falo também das coisas
que não vejo
e vejo que, não sendo
as coisas que são,
vivem entre o resto
do que afirma ser.
Danço, ainda,
mesmo sem mexer;
acredito que estar
é igual a fugir, ferir
as paredes, voltar ao universo
onde nunca se pensou
habitar."
Manuel Fernando Gonçalves
in As horas certas é que me enervam
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
The Laughing Heart
A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.
* Charles Bukowski
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.
* Charles Bukowski
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Poema da Despedida
"Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo."
* Mia Couto
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Encontro com um falso mendigo
" - Ouve..., - disse-lhe com súbita clareza o companheiro - sabes porque sou capaz de claramente me ver... me conhecer... me confessar? Por desprezo! Porque me desprezo. Desprezo é o sentimento, se é sentimento, que a humanidade mais geralmente me inspira; e às vezes ódio, quando pinta de belas aparências os seus piores vícios e cobardias; ou quando excede os mais razoáveis limites da estupidez e da maldade... já hoje viste, não é verdade?, darem-nos esmola vários nossos semelhantes. Alguns te pareceram, decerto, dotados do verdadeiro espírito de caridade. O teu coração agradeceu-lhes, talvez com sincera gratidão... Pois analisa um bocadinho a caridade deles e o teu reconhecimento. Qual o fundo dessas lindas aparências? Comodismo, vaidade, capricho, amor próprio, complacência..., e também certa sentimentalidade torpe, certo amolecimento obsceno a que, por aí, chamam bondade, e que só damos aos outros para que os outros no-los dêem a nós; ou para os darmos nós a nós próprios. Desprezo meu rapaz! Eis o que todos merecemos; o que tudo isto merece. É por desprezo que eu mendigo e me disfarço de pobre sendo rico; me faço ignorante e parvo, tendo muitos estudos. Era um grande inquieto; mas desde que desprezo, alcancei a paz. Vivo pachorramente, assisto à desgraça dos outros, divirto-me de vários modos, sou tão feliz quanto me é possível sê-lo. Na realidade, vivo como se continuamente estivesse representando. É como se tudo isto que vemos se reduzisse a um volúvel cenário, e a vida mais não fosse que uma extravagante comédia."
José Régio
terça-feira, 26 de julho de 2011
incandescência
"E tudo se confundia com o que era, ou pensava ser, assim perdida e mais que tudo lúcida, à beira do renascer. Matéria bruta a desfazer-se, a dar lugar à febre, território poético onde se anunciava a morte, onde crescia apenas o furioso apelo das origens.
Estátua que entrevia, intensamente viva, construída de ondas regulares que faziam estremecer o caos e desenhavam em harmonia um baptismo de sangue."
Maria Graciete Besse
Incandescências
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quinta-feira, 7 de julho de 2011
A tua beleza submerge-me
"Sabina já não beijava nem homens nem mulheres. Dentro da febre da sua ansiedade, o mundo ia perdendo a sua forma humana. Estava a perder o poder humano de articular o corpo noutro corpo em plenitude humana. Ela delimitava horizontes, afogando-se em planetas sem eixo, perdendo a sua polaridade e o seu saber divino de integração, fusão. Propagava-se como a noite se propaga no universo e não encontrou nenhum deus com quem repousasse. A outra metade pertencia ao sol e ela estava em guerra com o sol e com a luz. Não podia suportar traços de luz em livros abertos, nem a orquestração de ideias tricotadas num único tema; não seria coberta pelo sol e no entanto metade do universo pertencia ao sol; ela voltaria a serpente apenas para aquele que pudesse cobrir-lhe o corpo com a sua sombra dando-lhe a alegria da fecundação.
(...)
A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua pele me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável.
As tuas mentiras, não são mentiras, Sabina. São flechas lançadas para fora da tua órbita pela força da tua fantasia. Para alimentar a ilusão. Para destruir a realidade. Vou ajudar-te: sou eu quem inventará para ti as mentiras e com elas iremos atravessar o mundo. Atrás das nossas mentiras desenrolo o fio de ouro de Ariana - porque de todas as alegrias a maior é a de voltar pelo percurso das mentiras, chegar novamente ao ponto de partida e dormir uma vez por ano livre de todas as estruturas de superfície.
Tu deixaste a tua marca no mundo, Sabina. Eu apenas o atravessei como um fantasma. Será que à noite alguém dá pelo mocho na árvore, ou pelo morcego que vem contra a janela enquanto os outros falam, ou pelos olhos que reflectem como água e bebem como mata-borrão, ou pela piedade que vacila como luz de vela, ou pelo conhecimento seguro sobre o qual as pessoas adormecem?
Será que alguém sabe quem eu sou?"
Anais Nin
in A Casa do Incesto
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Tu eras também uma pequena folha
"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."
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