quinta-feira, 21 de abril de 2011

..a fecundidade da destruição..



"Vou deixar-te levar-me até à fecundidade da destruição. Por isso me atribuo um corpo, um rosto e uma voz. Eu sou-te como tu me és. Cala o fluxo sensacional do teu corpo e encontrarás em mim, intactos, os teus medos e as tuas penas. Descobrirás o amor separado das paixões e eu descobrirei as paixões privadas de amor. Sai do papel que te atribuis e descansa no centro dos teus verdadeiros desejos. Por um momento deixa as tuas explosões de violência. Renuncia à tensão furiosa e indomável. Eu passarei a assumi-las."

Anais Nin
A Casa do Incesto
imagem de Stephanie Pui-Mun Law

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Não canto porque sonho



"Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nus e suados."


Composição: Eugénio de Andrade

terça-feira, 5 de abril de 2011

É urgente


"É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor,
é urgente
permanecer."

* Eugénio de Andrade

quinta-feira, 3 de março de 2011

A Malinche



"A primeira coisa que aprendeu a moldar foi uma vasilha para beber água. Malinalli era uma menina de apenas quatro anos de idade, mas com grande sabedoria, e perguntou à avó:
- Quem se lembrou de fazer jarros para a água?
- A própria água se lembrou.
- E para quê?
- Para poder repousar na superficie e assim poder contar-nos os segredos do universo. Ela comunica connosco em cada charco, em cada lago, em cada rio; tem diferentes maneiras de se vestir de gala e de se apresentar a nós sempre nova. A piedade do deus que mora na água inventou os recipientes onde, ao mesmo tempo que alivia a nossa sede, fala connosco. Todos os recipientes que contêm água lembram-nos que deus é água e é eterno.
- Ah! - respondeu a menina admirada. - Nesse caso, a água é deus?
- Sim. E também o são o fogo, o vento e a terra. A terra é a nossa mãe, a que nos alimenta, aquela que, quando descansamos sobre ela, nos recorda de onde viemos. Em sonhos diz-nos que o nosso corpo é terra, que os nossos olhos são terra e que o nosso pensamento será terra lançada ao vento.
- E o fogo, que diz?
- Tudo e nada. O fogo produz pensamentos luminosos quando deixa que o coração e o espírito se fundam num só. O fogo transforma, purifica e ilumina tudo o que se pensa.
- E o vento?
- O vento também é eterno. Nunca acaba. Quando o vento entra no nosso corpo, nascemos, e, quando sai, é porque morremos, por isso temos de ser amigos do vento.
- E... este...
- Já nem sabes o que perguntar. É melhor guardares silêncio, não gastes a tua saliva. A saliva é água sagrada que o coração cria. A saliva não deve gastar-se em palavras inúteis porque então estaremos a desperdiçar a água dos deuses e olha, vou dizer-te uma coisa que não deves esquecer: se as palavras não servirem para humedecer nos outros a lembrança e conseguir que aí floresça a memória de deus, não servem para nada."



Laura Esquivel
in A Malinche

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Vou sair para comprar cigarros


"Meu amor, eu volto já
Vou por aí, vou ver o mar
Ouvir o canto da sereia
E duvidar, vou duvidar,
Do sol, do céu, do chão, do ar,
Vou-me afundar
Na ferida escura e esquiva
Que me tem cativo, imóvel
Sem solução

Meu amor, se eu naufragar
Se me perder no teu olhar
Desaparecer sob o luar
Me consumir de bar em bar
na bruma bêbada de um cais
Gritar que quero mais que a vida
E mais e mais e mais..
Perdoa
Perdi-me
Na confusão.

Se porém eu me encontrar
Talvez o mar se acalme no meu peito
E eu possa pôr os pés no chão
E respirar
E abraçar a solidão
E ocupar o meu lugar
Na vasta e tensa imensidão
E então voltar, e.. se..
Tu ainda me quiseres
Meu amor, se desejares
Dou-te tudo o que sobrar de mim."


JP Simões
Vou Sair Para Comprar Cigarros






quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Amor a Contra-Relógio



"O desejo de amar cresce como uma onda nas madrugadas frias, nas madrugadas lentas.
(...)
Acordei sozinha no meu quarto e senti-me profundamente triste e abandonada porque o tempo estava contra mim, pela primeira vez na minha vida. O meu amor era a contra-relógio. Agora as coisas teriam sido diferentes, embora nada me garanta que pudessem por isso ser melhores. (...)
Ao enorme desejo de me dar para ficar em ti substituiu-se a sensação imediata de me ter dado inutilmente. Eu não fiquei em ti (às vezes pergunto-me a mim mesma se realmente me cheguei a dar) e num amor a contra-relógio é o tempo que ganha.
Hoje tenho a certeza e por isso modifiquei a minha ideia do tempo, já que o amor tal como foi é imodificável. Tenho a certeza também que voltarei a fazer o mesmo de cada vez que ame, porque sinceramente o tempo não me assusta agora que o conheço. Mas espero primeiro até ser loucamente amada. Digo loucamente e não é fazer literatura. Tem de ser loucamente. Como um bicho que rói alucinado as noites e os dias, o riso e o choro e as simples emoções neutrais de todas as pessoas. Se não não vale a pena, é um amor de mortos.
(...) Foi voluntariamente belo e triste. Aceitei logo de inicio a tristeza do nosso amor por causa da beleza que encerrava e que estoirou depois como um abcesso. Ainda não consegui desvender o mistério que há nos desencontros. Sejam quais forem as nossas relações fica sempre por resolver o mistério de tudo o que poderia ter acontecido e não aconteceu, não sei porquê."


Y. K. Centeno
Quem Se Eu Gritar
in Três Histórias de Amor

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

*


"O ser humano é uma parte de um todo a que chamamos "Universo", limitada no tempo e no espaço. Vê-se a si mesmo, aos seus pensamentos e emoções, como estando separado do resto, numa espécie de ilusão óptica da consciência. Esta ilusão é um tipo de prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais e que nos limita o afecto apenas a umas quantas pessoas que nos rodeiam. A nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos dessa prisão, alargando os nossos círculos de compaixão de modo a abraçarmos todas as criaturas vivas e conjunto da natureza, com toda a sua beleza."


* Albert Einstein *